Existe em mim um amor que é meu. Ele me orienta e consola nos momentos em que me sinto só, triste ou aflita neste planeta alucinado e febril. Ai de mim se não fosse ele.
Cada um sente o mundo à sua maneira. Por minha vez, aquilo que grita e me assusta é a dor que existe nele, não porque eu possa ser doente ou masoquista, mas porque sofro diretamente os reflexos da dor que impera.
Quando me perguntam de que forma esta dor me atinge, respondo: Basta olhar atentamente ao redor, ler os olhos que cruzam com os nossos, observar o caminhar das pessoas, a altura de suas cabeças. É possível ver marcas sombrias nos olhares, tristeza nos sorrisos forçados, medo e insegurança na cadência dos passos. De onde vem tudo isso? Fica a impressão de termos voltado para um estado de espírito medieval em que reina a sensação de vazio e a vulnerabilidade. A parte ainda pior em tudo isso é que não se vê preocupação com as conseqüências das coisas. A frustração, a sensação de estar desprotegido e carente tem levado as pessoas á atitudes egoístas e libertinas numa busca sôfrega pelo alívio da angústia. Porém, nem sempre buscam o remédio adequado e esquecem que tudo tem uma reação posterior. A dor, geralmente, surge aí.
O individualismo, a intolerância, a falta de disposição para o cultivo paciente de relações maduras, a praticidade moderna em “descartar” pessoas tem repercutido amargamente entre nós. Vemos os relacionamentos assolados por dúvidas, desencontros, enganos e frustrações. Vemos o melhor que somos, o melhor que podemos dar de nós atirados em lixeiras, traídos pela incapacidade dos outros de enxergarem a nossa alma. Não há mais possibilidade de confiança? Pergunto. Tudo está tão vulnerável à libido, tão prático que as pessoas se trocam frivolamente sem conhecerem sensações mais intensas de cumplicidade?
Magoa-me esta praticidade moderna que banaliza os sentimentos e torna os nossos corpos, meros objetos de prazer furtivo. Pergunto-me: E a nossa inteligência, e aquela fração quase divina que temos capaz de nos tornar verdadeiras estrelas na vida de alguém? E a alma, a doçura, a suavidade, o que se tem feito delas? Eis a questão, a causa da dor nos olhares e nos passos... Violentamos e somos violentados todos os dias.
Todos nós temos nossos sonhos. O meu? Quando eu estiver bem velha, quase viajando como passarinho, quero ser capaz de fechar os olhos, sorrir e lembrar que um dia me senti verdadeiramente nos braços dos anjos por causa do amor de alguém. Enquanto isso não acontece, me alimento deste amor que me habita e me prepara, desafiador, para o melhor encontro da minha história.