COLUNISTA - Eva Vilma F. Neto    
   

  Nome: Eva Vilma F. Neto
  Profissão: Professora de História
  E-mail: vileva@ig.com.br
 
Tel.: (31) 9154-1600
 

 

ORGANIZAÇÃO + MOVIMENTO + AÇÃO = REVOLUÇÃO EDUCACIONAL
 
  Olá leitor, aqui estou eu mais uma vez para tratar de dois temas polêmicos: o negro e a educação. Gostaria muito de trazer algumas reflexões acerca do negro na sociedade em que vivemos hoje e sua dependência histórica de ações sociais que os permitam destacar, assim como trazer uma proposta educacional capaz de transformar em 20 anos a auto estima de negros que se sentem injustiçados e excluídos da sociedade em que vivemos.

  Quando foi que você já ouviu dizer ou leu sobre a organização do negro em busca de uma educação de base que possa melhorar seus números estatísticos relacionados a pobreza, a violência e a marginalidade? Você deve estar pensando nos Quilombos, especificamente no Quilombo dos Palmares, não é? Palmares não nos serve como exemplo, porque no Brasil Colônia, os negros se organizaram sim (porque tinham como objetivo comum fugir da realidade escravista à eles impostas) mas para reproduzir seus costumes africanos e não como tentativa oportunista de qualificação e educação para se reinserirem na sociedade da época. E isso vem acontecendo desde a abolição da escravidão onde os negros “ganharam” sua liberdade, mas sem possuírem condições de se rescolocar no mercado de trabalho. Tudo isso porque naquela sociedade era de costume que os negros que ascendessem na hierarquia sócio-economica reproduzissem as atitudes dos brancos, buscando sempre ter mais escravos e enfatizando as diferenças entre senhores e escravos. Em Minas Gerais e Goiás esse quadro se apresenta de maneira mais repetitiva, devido à corrida em busca de ouro. E foi assim que a sociedade Brasileira foi se formando. Desde o império até hoje os negros não se organizaram para buscar melhor educação e qualificação profissional para si, e sim para todos, o que muitas vezes descaracteriza e inviabiliza suas possíveis conquistas.

  Acredito muito nos benefícios do Movimento Negro em nosso país, mas acho que suas ações são mais corretivas que preventivas. Chamo de corretivas as ações que visam cobrir falhas do Estado, como por exemplo: Cursinhos pré vestibulares para negros, índios e alunos carentes – que hoje apresentam um bom nível de aprovação. Também são corretivos os cursos de computação espalhados pelas regiões menos favorecidas. Não posso negar que existem ações preventivas, mas elas quase sempre se encontram nos campos da arte, culinária e esportes, como meio de reter as crianças e jovens para que esses não se dissipem no mundo do crime. É nesse momento que proponho ao Movimento Negro pensar num projeto preventivo educacional, e acredito que a hora é agora já que a reforma Universitária vem reservando vagas para negros e índios além das bolsas para alunos carentes. Enfim proponho aos Movimentos Negros transformar essa realidade, lançando novas sementes em solos férteis.

  Minha proposta é dirigida aos Graduados, Mestres e Doutores engajados nesses movimentos que se organizem para que possamos construir uma educação melhor para nossos filhos, já que eles estão sujeitos ao descaso da escola pública. Se começarmos pela educação primaria, partindo para a educação fundamental e média acredito que em 30 ou 40 anos a situação do negro no Brasil terá se transformado muito, pois somente através da educação deixaremos de fazer parte de estatísticas que apontam o negro como maioria na população marginalizada – em todos os sentidos da palavra.

  Em minha proposta abordo primeiramente que a grade curricular deve ser composta por abordagens afro brasileiras em todas as séries. No primário as crianças deveriam aprender o respeito às diferenças de cor de pele, cabelo, olhos, tal qual as diferenças de etnia, religiosa, dentre outras. No ensino fundamental as abordagem devem girar em torno de questões envolvidas com o relacionamento sócio-afetivo-profissional entre as etnias de maneira que os professores sirvam de exemplo para seus alunos (que muitas vezes não dispõem de bom exemplo dentro de casa) servindo de suporte para a construção da auto estima desses alunos. Também devem ser abordados temas relativos a admiração das diferenças e a complementaridade cultural que a miscigenação cultural trouxe para a formação do povo brasileiro.

  No ensino médio o quadro se complica um pouco, pois questões voltadas para direitos e deveres dos cidadãos, política e oportunidades de trabalho devem ser trabalhadas de maneira que esses jovem se sintam seguros e capazes de escolher uma carreira profissional que se ajuste ao seu perfil. Cito especialmente os ensinos primário, fundamental e médio porque eles têm se mostrado fundamentais para que o negro consiga se inserir na universidade ou mesmo se colocar no mercado de trabalho profissionalizante – que corresponde ao ensino médio.

  A verba para a viabilização desse projeto deveria partir do Estado brasileiro, mas se não for possível devemos buscar instituições financiadoras como a UNICEF que apóiem projetos em busca de melhores condições qualitativas e diminuição das “diferenças gritantes” entre os povos. Se a verba vier do governo brasileiro se prepare para correr o risco de se ver envolvido em escândalos de lavagem de dinheiro, mas esteja preparado administrativamente para comprovar os gastos e os benefícios que esse novo tipo de escola traz para a sociedade, porque para o governo o que importa são os números que representamos.

  A essa altura do campeonato, você leitor, deve estar em êxtase com minha proposta por ver uma luz no fim do túnel, já que nosso Estado nunca nos permitiu sequer aproximarmos do túnel. Nesse momento não falarei das razoes que o Estado brasileiro possui para nos manter afastado do túnel, pois deixarei o tema para uma outra oportunidade. Ou você deve estar com ojeriza de minhas idéias por julga-las preconceituosas e capazes de levar à segregação racial como acontece nos Estados Unidos.

  É claro que concordo com você que está em êxtase, mas não deixo de me sentir desconfortável com você que sente ojeriza e por isso preciso aqui me posicionar e defender meus argumentos diante da possibilidade de escolha. Particularmente eu abraço minha proposta, pois gostaria muito de vivenciar o processo histórico de organização, transformação e efetivação da educação no Brasil. Se essa transformação partir de uma movimentação do negro em busca não só pela sua formação educacional mas pela de seus descendentes, não vejo porque ficarmos lutando pela discussão acerca de como abordar temas Afro Americanos nas escolas (como propõem as escolas publicas atualmente) pois com a implantação desse projeto esse tema será abordado desde o primário, o que exigirá um trabalho integrado entre professores e pais de alunos. Você sabe o que isso significa? Significa que você enquanto pai de uma criança negra matriculada nessa escola terá que estar aberto para buscar e aceitar suas raízes, tradições e o mais importante, lhe dar com as miscigenações presentes em sua família sem que uma característica venha a ser melhor que outra sendo ela negra ou branca. Digo isso porque esses temas estarão presentes em sua casa na lição de seus filhos, na formação da identidade e da personalidade dessa criança, em busca de uma geração mais consciente dos problemas e das diferenças sociais.

  Nesse momento, é bom que fique bem claro que não estou levantando nenhuma bandeira racista que vise a competição entre as raças para que elas se digladiem ainda mais em nossa sociedade. Apenas proponho que os negros parem de esperar que os benefícios venham sempre do Estado e arregassem as mangas – com Deus em primeiro lugar e muita coragem – em busca do diferencial que os colocará em pé de igualdade em qualidade educacional e profissional com qualquer outro indivíduo no mercado de trabalho.

  É certo que a quantidade de negros formados – cada um com sua qualificação – que poderia estar na ativo caso esse projeto ou outro semelhante já estivesse em andamento é muito grande. E é diante dessa crescente possibilidade de desemprego que sugiro que os negros se organizem, mesmo que comessem voluntariamente em busca da efetivação desse projeto.

  Agora você deve estar pensando, mas trabalho voluntário não dá renda, e eu concordo contigo, mas em partes, porque através do trabalho voluntário você adquire experiência e alarga suas possibilidades de conseguir uma colocação no mercado formal de trabalho. Mas para que isso se seja possível e talvez se efetive, dou-lhe um conselho: busque sempre qualificação em sua área e interaja com assuntos diversos – principalmente os profissionais da área de humanas, onde os acontecimentos mudam da noite para o dia. Estando pronto para a competição do mercado de trabalho, acredite em Deus, confie em você e esteja atento as oportunidades, pois se você estiver qualificado e possuir um pouquinho de sorte as portas se abrirão e seus sonhos se realizarão.

  Vejo esse projeto como um laboratório que se algum dia for colocado em pratica tem muitos subsídios para obter sucesso. Será também o lócus onde os negros poderão cultivar sentimentos de respeito ao diferente e admiração pela sua cultura. Confiando nisso, poderemos competir em pé de igualdade, em especialização de qualidade, em auto estima, e em auto confiança com qualquer indivíduo de qualquer etnia, já que vivemos num mundo globalizado onde as melhores oportunidades são ocupadas pelos melhores preparados.

Um grande abraço e boa sorte.

 
   
Eva Vilma F. Neto
 
     
14/10/2005
 
 
 
© 2003 - 2009 AGE Sistemas Consultoria | Torre Interativa Comunicação Digital